Medicamentos e apoio da família controlam esquizofrenia

Carinho dos cuidadores é fundamental para que os sintomas desapareçam

POR REDAÇÃO - ATUALIZADO EM 05/09/2016

O cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi assassinado a facadas na manhã do dia 02 de fevereiro em sua casa, no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, ele foi atacado pelo próprio filho, Daniel, de 41 anos, que tentou se suicidar após a agressão. Com duas facas de cozinha, ele atacou também a mãe, Maria das Dores, de 62 anos, internada em estado grave com duas facadas no peito e três na barriga.

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Esquizofrenia - Foto: Getty Images
Esquizofrenia

Segundo amigos da família, Daniel tem esquizofrenia e faz uso de remédios controlados. De acordo com o delegado Rivaldo Barbosa, diretor da Divisão de Homicídios, a mãe teria conseguido se desvencilhar de Daniel e, trancada em um dos cômodos, acionou o outro filho do casal, Pedro, promotor de Justiça em Petrópolis, na região serrana do Rio. Eduardo Coutinho filma desde 1966 e é conhecido por filmes como Cabra Marcado para Morrer, Edifício Master e Jogo de Cena.

Uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE), em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp (PROESQ), mostra como o apoio de pessoas próximas, além do tratamento eficiente, pode ajudar a controlar a doença e evitar recaídas. Para entender melhor esse impacto, os autores do estudo entrevistaram 60 pessoas que cuidavam de um parente (pai ou mãe na maioria dos casos) com a doença há mais de 10 anos. O estudo conclui que é possível ter uma vida normal sendo portador, desde que o tratamento seja eficaz e iniciado precocemente.

A dúvida que fica é se a doença poderia ter realmente deixado Daniel mais violento. Conversamos com especialistas no assunto que nos contaram um pouco mais sobre a doença e as possíveis relações com o caso.

Afinal, o que é esquizofrenia?

Esquizofrenia é uma síndrome que afeta o pensamento e a percepção do portador. O que o paciente sente ou pensa não condiz com a realidade ao qual ele está inserido. De acordo com o psiquiatra Rodrigo Bressan, membro da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE), os principais sintomas da doença são delírios e alucinações.

Médico - Foto: Getty Images
Ajuda

Entende-se por delírios os pensamentos desconexos e não correspondentes com a realidade - achar que está sendo perseguido por alienígenas, por exemplo. Já as alucinações são percepções de fato - sentir cheiros, gostos e até mesmo formas que não existem. Rodrigo conta que a esquizofrenia geralmente é diagnosticada depois que o paciente passa pelo chamado Episódio Psicótico Agudo. "A pessoa de repente começa a ter crenças estranhas, ouvir vozes, se isolar", diz.

A psiquiatra Julieta Guevara afirma que as alterações que o portador de esquizofrenia tem em seu cérebro faz com que seus pensamentos fiquem lentos, desconexos, com formas e associações sem ligações entre as frases. Segundo Rodrigo Bressan, a prevenção é o melhor caminho para impedir as recaídas. "É preciso medicações cada vez mais eficazes somadas ao tratamento médico", afirma.

De olho nos sintomas de recaídas

Ajuda - Foto: Getty Images
Ajuda

É muito difícil identificar tanto a esquizofrenia quanto o início das recaídas, mas, quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, maiores as chances de o tratamento dar certo. "Caso o portador nunca tenha tomado medicamento ou tenha parado há muito tempo, o cérebro se deteriora e o quadro fica resistente aos remédios", conta a psiquiatra Julieta Guevara, da Associação Brasileira de Psiquiatria.

É por isso que a pessoa que mais convive com o paciente - chamada de cuidador - precisa ficar sempre atenta aos sintomas: olhar enviesado (desconfiado, atravessado), alucinações, comportamento antissocial ou estranho, desconfiança e perseguição, agitação e insônia, delírios, sensações viscerais (sensação de ausência de órgãos ou de explosão do corpo), agressividade, ameaça, tentativa de suicídio e TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo.

Como evitar essas crises

O uso de remédios antipsicóticos é fundamental, mas, sozinhos, eles não resolvem a doença e ainda podem gerar uma série de efeitos colaterais, como salivação excessiva, intestino preso e endurecimento muscular. Por isso, Rodrigo Bressan recomenda combinar os medicamentos a terapia e atividades que aumentem o contato do paciente com a realidade. "Aulas de pintura, de desenho e de música são grandes aliadas do controle da esquizofrenia", sugere.

Os autores da pesquisa também lembram que é importante existir uma colaboração tripla para evitar recaídas: o paciente (com aceitação e colaboração), o cuidador (com amor e dedicação) e o psiquiatra (com competência e perseverança). "Essa interação facilita a prescrição da medicação adequada, que passa por constantes ajustes e pode demorar anos para chegar a um ponto ideal", explica o psiquiatra Rodrigo.

Todo esquizofrênico é violento?

Os esquizofrênicos, em geral, têm um comportamento menos violento e taxas de agressividade menores que o restante da população.

A relação feita entre esse caso e a doença nos faz pensar que a esquizofrenia pode estar diretamente relacionada a um comportamento violento. Porém, longe disso, pesquisas comprovam exatamente o contrário. Estudos feitos em diversas universidades de diferentes países afirmam que os esquizofrênicos, em geral, têm um comportamento menos violento e taxas de agressividade menores que o restante da população. "Pacientes esquizofrênicos não costumam ter a iniciativa de fazer mal a alguém, ficam isolados", diz Rodrigo.

Como explicar, então, um comportamento agressivo vindo de um portador da doença? Uma das possíveis respostas é que este não estava sob tratamento adequado. "A falta de tratamento e orientação pode resultar em tragédias, que são casos isolados", explica Julieta Guevara.

Tratamento por toda a vida

Como a esquizofrenia é uma doença mental crônica, o paciente precisará controlar recaídas durante toda a vida. Rodrigo Bressan conta que as crises costumam ocorrer exatamente porque a pessoa abandona o tratamento por acreditar estar curada, já que os sintomas podem desaparecer. "Mas a doença só será mantida sob controle se houver uma adesão total ao tratamento", alerta.

A psiquiatra Vânia Baggio, do Hospital Bandeirantes, explica que o tratamento é tão importante que pode melhorar até vida social da pessoa. "Em alguns graus de esquizofrenia, com o acompanhamento médico apropriado, o paciente consegue manter uma vida normal, com estudos e emprego", afirma.

O desafio do cuidador

O trabalho do cuidador é muito importante - e complicado. Como o paciente tende a se isolar e ter reações diversas, ele precisa de uma pessoa que o acompanhe constantemente, dando apoio e ficando atenta a possíveis sintomas de recaídas. "Também é essencial estimular o contato da paciente com a família, para que ele se sinta parte daquele núcleo e interaja", afirma a psiquiatra Vânia Baggio.

Essa tarefa está longe de ser fácil e o preconceito e a falta de informação podem atrapalhar. Um estudo da revista médica The Lancet mostrou que a discriminação prejudica cerca de 43% dos indivíduos vítimas de esquizofrenia. E o pior: são os parentes e os amigos que encabeçam as atitudes agressivas. A pesquisa envolveu pacientes de 27 países e também revelou que a rejeição atrapalha até o desenvolvimento profissional deles, que acabam desistindo de procurar emprego com medo do preconceito na seleção.

É por isso que família e amigos precisam se informar sobre a doença para conseguir compreender o comportamento do paciente. A pesquisa da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE) mostrou que, durante uma recaída, as melhores atitudes que o cuidador pode ter, além de dar medicação, são: ouvir o paciente durante horas, falar muito pouco, não argumentar em contrário, não retrucar e não desqualificar as percepções do paciente. É necessário também propor atividades relaxantes e ocupacionais, capazes de acalmá-lo.

A dedicação do cuidador chega a ser tão integral que pode comprometer a sua vida pessoal, social e profissional. "Ele é convocado a viver em função do paciente, tanto que muitos se aposentam", afirma José Alberto Orsi, diretor adjunto da ABRE. Os especialistas aconselham procurar a ajuda de grupos de apoio e terapia profissional. "A terapia, tanto para o paciente quanto para a família, é fundamental como ferramenta que estimula a inserção social, uma das maiores dificuldades de uma pessoa que, de um modo simples, corta a ligação com a realidade externa", diz a psiquiatra Vânia.

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