Esquizofrenia: tratamento tardio influencia a gravidade dos casos

Quando demora, o cérebro se deteriora, e o paciente fica resistente aos remédios

POR CAROLINA SERPEJANTE - PUBLICADO EM 19/04/2011

Recentemente o Rio de Janeiro passou por um episódio que chocou o país. A escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro carioca Realengo, foi palco do assassinato de 12 crianças seguido do suicídio de Wellington Menezes de Oliveira, responsável pelas mortes.

Os jornais publicam diariamente diversas teorias acerca do que possa ter motivado os assassinatos. Uma das principais aponta que Wellington matou essas crianças para vingar-se do bullying que sofreu durante a infância, quando estudava na escola em questão.

Um de seus irmãos declarou em entrevista que Wellington, além de sofrer bullying e ser rejeitado pelas meninas do colégio, foi diagnosticado com esquizofrenia já aos 6 anos de idade, quando passou, inclusive, a tomar remédios controlados.

A dúvida que fica é se a doença, aliada ao bullying sofrido, poderia ter realmente motivado Wellington a cometer o massacre. Conversamos com especialistas no assunto que nos contaram um pouco mais sobre a doença e as possíveis relações com o caso.

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esquizofrenia - Foto Getty Images
esquizofrenia

Afinal, o que é esquizofrenia?
Esquizofrenia é uma síndrome que afeta o pensamento e a percepção do portador. O que o paciente sente ou pensa não condiz com a realidade ao qual ele está inserido.

De acordo com o psiquiatra Rodrigo Bressan, membro da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE), os principais sintomas da doença são delírios e alucinações.

Entende-se por delírios os pensamentos desconexos e não correspondentes com a realidade - achar que está sendo perseguido por alienígenas, por exemplo. Já as alucinações são percepções de fato - sentir cheiros, gostos e até mesmo formas que não existem.

Rodrigo conta que a esquizofrenia geralmente é diagnosticada depois que o paciente passa pelo chamado Episódio Psicótico Agudo. "A pessoa de repente começa a ter crenças estranhas, ouvir vozes, se isolar", diz.

A psiquiatra Julieta Guevara afirma que as alterações que o portador de esquizofrenia tem em seu cérebro faz com que seus pensamentos fiquem lentos, desconexos, com formas e associações sem ligações entre as frases. "No caso do Wellington, isso pode ser percebido nos vídeos que publicou antes do massacre, nos quais a sua fala é lenta, sem variações de tom e muito desconexa, mesmo quando ele toca em questões de alto conteúdo afetivo, como não ter família", explica a especialista.

esquizofrenia - Foto Getty Images
esquizofrenia

Relação entre a doença e o caso Realengo
Os especialistas afirmam que as motivações para que Wellington cometer o crime podem estar, sim, relacionadas à doença. Porém, não se pode afirmar nada com 100% de certeza. "O garoto poderia ter, além da esquizofrenia, algum desvio de personalidade ou conduta, que o incentivaria muito mais a cometer os assassinatos", diz Rodrigo.

"O diagnóstico nos diz que sua fragilidade mental não lhe permite amadurecer ou superar o tratamento cruel que sofreu na adolescência", conta Julieta. Condição essa que pode ter sido fator determinante para que Wellington cometesse os assassinatos. "É bem possível que ele estivesse psicótico, com uma crença de que pessoas o perseguiam", completa Rodrigo.

Todo esquizofrênico é violento?
A relação feita entre esse caso e a doença nos faz pensar que a esquizofrenia pode estar diretamente relacionada a um comportamento violento. Porém, longe disso, pesquisas comprovam exatamente o contrário.

Os esquizofrênicos, em geral, têm um comportamento menos violento e taxas de agressividade menores que o restante da população.

Estudos feitos em diversas universidades de diferentes países afirmam que os esquizofrênicos, em geral, têm um comportamento menos violento e taxas de agressividade menores que o restante da população. "Pacientes esquizofrênicos não costumam ter a iniciativa de fazer mal a alguém, ficam isolados", diz Rodrigo.

Como explicar, então, o comportamento de Wellington? Uma das possíveis respostas é que ele não estava sob tratamento adequado. "Sem tratamento e sem orientação adequada temos essa tragédia como resultado. Temos que ter em mente que esse é um caso isolado", explica Julieta.

Além disso, Wellington sofreu fatores agravantes, como histórico de doenças mentais na família - sua mãe - e o fato de ser sofrido bullying quando tinha entre 12 e 15 anos, que era a faixa etária das vítimas.

esquizofrenia - Foto Getty Images
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Tratamento
Os possíveis tratamentos para a esquizofrenia envolvem medicamentos antipsicóticos e terapias de diversos gêneros. De acordo com Julieta Guevara, os antipsicóticos são capazes de reorganizar os pensamentos do paciente. "Se o Wellington estivesse sob tratamento, a medicação poderia ter contido a expressão da raiva que alimentou a tragédia", diz.

É importante ressaltar que se o portador do distúrbio nunca foi tratado ou interrompeu o tratamento há muito tempo será difícil restituir o equilíbrio. "Caso o portador nunca tenha tomado medicamentos, o cérebro se deteriora, e o quadro fica resistente aos remédios", diz Julieta.

Por isso é importante que o distúrbio seja identificado o mais cedo possível e o tratamento não seja interrompido.

Como lidar com o preconceito
O preconceito contra portadores de distúrbios mentais, como a esquizofrenia, ainda é muito grande. E casos como o de Wellington só fazem agravar essa questão. "Meus pacientes são menos agressivos que a população geral, por que eles são tratados", conta Rodrigo.

De acordo com ele, pais e professores, principalmente do ensino fundamental, devem ter a sensibilidade e a instrução necessária para identificar esse tipo de distúrbio e tratá-lo. "O ideal é que existissem políticas de prevenção e informação sobre saúde mental", diz Julieta.

Se o seu filho é portador do distúrbio, certifique-se de que ele será incluído da forma adequada nas escolas e bem aceito pelos colegas. Os professores também devem conversar com alunos a fim de que todos possam conviver bem com a diferença.

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